Rui Borges deixa bem claro que haverá mudanças sérias no plantel
Sporting em quebra: "Não há responsabilidade unipessoal de Rui Borges"

Sporting em quebra: “Não há responsabilidade unipessoal de Rui Borges”
Em entrevista exclusiva concedida ao Desporto ao Minuto, José Eduardo, antigo jogador do Sporting, desresponsabiliza Rui Borges pela reta final de época abaixo do esperado, falando da falta de planeamento no início de temporada.
O Sporting deixou de depender de si próprio para ficar no segundo lugar, no final da presente edição da I Liga. Com o empate somado na Vila das Aves no domingo, o clube de Alvalade viu ficar mais longe o rival Benfica, e nem o jogo em atraso com o Tondela pode salvar o cenário.
Esta tem sido, de facto, uma reta final de temporada para esquecer por parte dos ainda bicampeões nacionais. Nos últimos seis jogos, os leões somam uma vitória, três empates e duas derrotas, período no qual marcaram três golos.
Dados que preocupam José Eduardo. Em entrevista exclusiva ao Desporto ao Minuto, o antigo jogador do Sporting recusa colocar todas as culpas no treinador, Rui Borges, e fala do mau planeamento da temporada.
O ex-jogador, de 71 anos, aponta ainda a densidade do calendário competitivo, que tem cada vez mais jogos, como um dos fatores, não só para a quebra exibicional do Sporting, como para o número excessivo de lesões.
“A equipa baixou no rendimento e nos resultados, à margem do resultado muito positivo no Porto, que permitiu a chegada à final da Taça de Portugal. A verdade é que há uma série de problemas. Julgo que não vivemos nos tempos quando eu jogava, quando os clubes eram constituídos por um presidente, uma direção, mais ou menos próxima e até muito interventiva, e depois um treinador e um adjunto. Agora, há um coletivo com staff grande e especialistas em variadíssimas disciplinas. Não podemos fazer uma análise tão simplista, que é uma análise mais popular”, começou por dizer José Eduardo.
“Há uma mudança de sistema de futebol internacional, que, depois, se reflete no nacional. Há muito mais competições. Os jogadores são, sobretudo nos clubes grandes, e não só, jogadores internacionais que estão constantemente a ser chamados para as suas seleções, com viagens, com jogos, etc. Por isso, são alvos de um desgaste muito grande. Há que repensar, sobretudo quem tem essa responsabilidade, qual é o modelo que tem de construir para fazer face a esta mudança que acontece no futebol mundial e, por reflexo, no nosso futebol. Isso passa por plantéis muito mais homogéneos, mais extensos e, depois, capacidades de resposta muito mais rápidas”, prosseguiu o antigo jogador.
“O Sporting, este ano, está com imensas lesões. Não estou com isto a dizer que este facto se deva à competência ou incompetência de alguém. Também não acho que haja uma responsabilidade unipessoal por parte do treinador. Penso que é uma boa lição. Isto não pode tirar mérito aos rivais, nomeadamente, ao FC Porto, que está a fazer um campeonato extraordinário. Mas esta é uma realidade que, para mim, enquanto sportinguista, gostava que fosse tratada por quem é direito. Não serei eu, naturalmente, há pessoas responsáveis que têm a obrigatoriedade de olhar para um ecossistema que é muito diferente daquilo que estávamos habituados há décadas”, salientou ainda José Eduardo.
O ex-jogador leonino reconheceu, ainda, que o Sporting se poderia ter reforçado de uma outra maneira em janeiro, mas sublinhou que a quebra de rendimento dos leões também está a acontecer noutros clubes europeus.
“Pode ser verdade que o Sporting se poderia ter reforçado de outra forma em janeiro, mas todos os clubes, se nós olharmos para o nível internacional, têm problemas. O Arsenal é um exemplo disso. O desgaste é tão grande, e depois o nível de lesões é elevado, porque os jogadores estão sujeitos a um desgaste enorme, que implica que se olhe para a construção dos plantéis de uma forma completamente diferente. Mas podia, agora, dizer que se podia ter previsto isso em janeiro, mas também nunca ninguém consegue adivinhar. Quando partimos para a construção de um projeto, temos, por regra, de olhar sempre para o copo meio cheio”, ressalvou, vincando a importância de olhar para o calendário.
“Para mim, o mais importante é refletir sobre o que é a competição do futebol a nível nacional e internacional. A partir desse momento, é construir o plantel, sem pôr em causa situações que acontecem. Há jogadores que são fundamentais e quando eles têm uma lesão, todo o grupo se ressente”, vaticinou.
Com a próxima época a aproximar-se, José Eduardo enalteceu a necessidade de se fazer um bom planeamento, sob pena de se repetir um cenário semelhante em 2026/27.
“Se fosse responsável, faria um planeamento. O sucesso depende em grande parte disso. Quais são os desafios que temos para os próximos anos? Qual é o contexto mundial do futebol? Enfim, uma série de questões, para, depois, ver quais são as consequências. Não há nenhum jogador que consiga aguentar uma época de competição e, sobretudo, uma competição tão intensa, como a que há atualmente no futebol mundial. Não há nenhum jogador que consiga aguentar o mesmo nível. Tem quebras de forma, tem lesões… Compete aos responsáveis planearem isso, entre os quais o treinador, que é um especialista na arte de treinar e na arte da exploração de rendimentos. Mas compete também à equipa diretiva, aos presidentes, colaborarem e perceberem qual é, digamos, o desafio que está a ser posto pela frente”, ressalvou o antigo jogador, de 71 anos, dando o exemplo de Luis Suárez.
“Há, no Sporting, o Ioannidis, que foi contratado para fazer uma dupla, jogando um ou outro, ou jogando os dois para essa posição. O Ioannidis aleijou-se, e o Suárez, naturalmente, caiu de forma. No último jogo em que ele jogou como titular, parecia outro jogador porque não tem força, não tem energia. Tudo isto são bons exemplos, ou maus exemplos conforme o ponto de vista, para tudo aquilo que estamos aqui a falar. É importante construir plantéis que sejam homogéneos em qualidade e em quantidade e isso cabe a quem de direito”, vincou.
“É muito importante falar sobre isto, muito mais do que estamos a pôr a culpa no jogador que falhou um penálti, no guarda-redes que sofreu um golo mal sofrido, no treinador… Primeiro, é preciso dar condições para, e depois sim, podemos exigir. Vamos também criar mais problemas aos treinadores, no sentido de ter um plantel que em que ele esteja satisfeito com as suas escolhas, sabendo fazer uma boa rotação. Olhemos para um jogador que não joga a maioria dos jogos. De repente, vamos colocá-lo a jogar e é claro que vai ter um défice de rendimento, por mais que esteja preparado e seja bom profissional. Há um conjunto de circunstâncias que fazem com que o novo treinador, os novos dirigentes, entendam quais são as mudanças que temos no futebol mundial”, finalizou.






